Brasil aguarda publicação de sentença para entender veto à extradição de Zambelli

0
image (10)

Carla Zambelli ao lado de seu advogado na Itália, Pieremilio Sammarco, após ser libertada - Reprodução/Pieremilio Sammarco no Instagram

por Folha de S.Paulo

O dia seguinte à decisão que rejeitou o primeiro pedido do Brasil para que a ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP) fosse extraditada foi marcado pela expectativa pela publicação das justificativas da Corte de Cassação, o que deve ocorrer nos próximos dias.

Envolvidos no caso, entre a incredulidade e a cautela, esperam a divulgação da sentença para entender o que motivou a reversão, pela última instância da Justiça italiana, da autorização da entrega de Zambelli ao Brasil, para que cumprisse dez anos de prisão.

cropped-AMBIPAR-BANNER
previous arrow
next arrow

Na noite de sexta (22), após audiência realizada pela manhã, a corte aceitou recurso da defesa e anulou a sentença proferida no fim de março pela Corte de Apelação, referente à condenação pela invasão do sistema do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e à emissão de um mandado falso de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Com isso, esse primeiro pedido foi encerrado. Ele não vai para o governo italiano —isso só ocorreria se a extradição tivesse sido confirmada—, e não há possibilidade de o Brasil recorrer.

Poucas horas depois, Zambelli deixou o presídio onde estava há quase dez meses. Segundo a Folha apurou, ela passou a primeira noite em Roma, no local onde está hospedado seu marido, o coronel Aginaldo.

“Estamos aguardando as alegações dessa decisão para entender por que houve essa mudança brusca de entendimento”, disse no sábado (23) o embaixador brasileiro na Itália, Renato Mosca. “Até então, a Corte de Apelação tinha dado pareceres favoráveis à extradição, e a Corte de Cassação normalmente acompanha esse entendimento, a menos que haja um vício de origem, uma questão de forma grave.”

Questionado sobre as reações do Itamaraty e do governo brasileiro, o embaixador disse que a decisão foi recebida com naturalidade. “É uma decisão da Justiça italiana, e não cabe a nós julgá-la.”

Mosca também prefere aguardar a divulgação das justificativas do tribunal para avaliar o impacto da decisão sobre as relações entre Brasil e Itália. “Ainda temos de esperar os argumentos para entender”, afirmou.

No breve comunicado enviado aos advogados, ao qual a reportagem teve acesso, os juízes afirmam que a sentença da Corte de Apelação deve ser anulada “sem reenvio”, ou seja, sem possibilidade de ser refeita. Os magistrados declararam a “inexistência de condições para a aceitação do pedido de extradição”, sem explicar as razões.

“Essencialmente, a Cassação entende que não tem condições no Brasil para a detenção da Zambelli, seja por condições desumanas, de saúde ou porque os cárceres não respeitam o Estado de Direito equivalente ao italiano”, disse o deputado italiano Angelo Bonelli, da oposição ao governo de Giorgia Meloni. “Se o tema for as condições carcerárias, precisa ver a sentença que será divulgada nos próximos dias.”

O parlamentar diz não esperar que a decisão afete as relações bilaterais. “O tribunal é um órgão autônomo do poder Executivo. O governo Meloni se livrou de um constrangimento”, disse, referindo-se ao fato de que esse primeiro pedido não terá a palavra final do ministro da Justiça, Carlo Nordio.

Bonelli acompanha o caso desde antes de Zambelli chegar à Itália, há quase um ano, e é apontado como aquele que revelou à polícia o esconderijo da ex-deputada em Roma. “As decisões dos tribunais devem ser respeitadas. Fiz o que fiz porque ninguém pode ter uma postura arrogante, como dizer ‘já que sou italiana, sou intocável'”, afirmou.

Zambelli é alvo de um segundo pedido de extradição, referente à condenação a cinco anos de prisão por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal, no episódio em que apontou uma arma para um homem em São Paulo. A Corte de Apelação também se manifestou a favor da extradição, e o recurso da defesa deve ser julgado na Corte de Cassação em cerca de 30 dias.

Pelo tratado entre Brasil e Itália sobre o tema, dos anos 1990, uma pessoa condenada só pode ser extraditada, entre outros pontos, se tiver tido os direitos mínimos de defesa assegurados no país de origem e na ausência de motivos para supor que, depois de extraditada, ela venha a ser submetida a pena ou tratamento que violem direitos fundamentais.

Desde o início da tramitação, no segundo semestre do ano passado, a defesa sustenta a linha de que Zambelli foi vítima de perseguição política no julgamento do STF. Eles apontam que o processo tem “anomalias” pelo fato de que a “a vítima do suposto crime ser a mesma pessoa que fez a sentença, que decidiu pela execução da sentença e que decidiu a apelação”, em referência a Moraes.

Outro ponto que parece ter ganhado relevância na reta final foram as condições carcerárias brasileiras, em específico as da Colmeia, o presídio no Distrito Federal apontado por Moraes para que Zambelli cumprisse sua pena no Brasil. Para os advogados, elas representam risco à ex-deputada, em termos de direitos humanos.

Corredores longos com paredes de concreto e grades metálicas, mostrando celas e áreas de passagem. Salas de aula com presos sentados em carteiras, alguns usando uniformes laranja e branco, assistindo a aulas ministradas por professores.
Imagens da Penitenciária Feminina do Distrito Federal, conhecida como Colméia – Reprodução

Colunistas

Compartilhar

Deixe um comentário...

cropped-AMBIPAR-BANNER
previous arrow
next arrow